sexta-feira, janeiro 22, 2010

Por isso

O amor existia e era muito maior que eles. Viola sabia que não
resistiria por muito tempo, por isso, acordava todos os dias antes
dele, e reservava, de forma quase sagrada, alguns minutos só para
vê-lo dormir.

Vagner detestava acordar com aqueles olhos negros lacrimosos em
cima dele, mas eles sempre vinham seguidos por uma montanha de beijos
e abraços, e isso o deixava imediatamente feliz. Ele a amava. Adorava
sua pele, cheiro, via poesia até em suas crises de humor, ele a queria
com tudo.

Viola não achava o amor de Vagner possível, tinha uma preguiça
interminável de si mesma, não era concebível em sua cabeça que alguém,
que a conhecesse como ele a conhecia, pudesse manter a admiração que
com frequência ela conseguia, no máximo, até o terceiro encontro.
Se julgava uma fraude, por isso acordava todos os dias sem saber se,
ao abrir os olhos, ele ainda a olharia com amor.

Vagner vivia feliz com a moça, não fazia ideia do que passava
pela cabeça dela, estava feliz com seu par, sentia ciúmes da beleza
dela, mas adorava vê-la, de todo jeito, despida, desarrumada, ou de
pijama velho. Adorava observar a moça se maquiando, enfeitando aqueles
olhos tristes que pareciam carregar mais historia que a idade dela
permitia.

Os dois viviam de mãos dadas, em total cumplicidade, como se
chegar não fosse o motivo. Se amavam com carinho, era possível ver no
olhar o desejo de um pelo outro, por isso Viola não se sentia capaz de
acordar um dia e ter que encarar o desprezo no rosto sonolento do
homem que era o amor de sua vida, ela não suportaria. Queria guardar
para sempre a imagem perfeita da adoração que Vagner sentia por ela.

Viola não temia a rejeição, tinha medo de ser desmascarada,
sofria em pensar no dia que Vagner a veria como alguém, que realmente
era: uma mulher falível, egoísta e medrosa. Por isso, numa manhã
cinzenta Vagner acordou com frio, sem coberta, a casa estava quieta,
ele chamou por Viola, mas não teve resposta. Sentou na cama e acendeu
um cigarro, pensou no que poderia estar acontecendo, sem achar motivo
razoável. No criado, um bilhete com uma frase curta explicava tudo: só
assim, serei sempre sua.

Certo de que havia sido abandonado e largado para trás como um saco
velho, Vagner sentia o peito inteiro abrir, partido pela metade, o
rapaz só queria sair dalí e ir para um lugar onde tudo que ela acabava
de tirar dele não fosse tão real. Queria ir para um lugar onde a
felicidade dele não fosse só uma lembrança.

terça-feira, novembro 24, 2009

Histeria

Eu entrei num outro mural.
Era meu, mas não era. Eu podia reconhecer tudo mas não tinha feito nada.

Confesso: eu gostei!

Eu teria estado lá, dito aquelas palavras e amado aquelas pessoas.
De vez em quando, mesmo, só pra variar, eu olharia para trás para
lembrar, com um gostinho bom, do quanto a minha vida poderia ter sido
mais tranquilo, e equilibrada.Ao voltar a cabeça me jogaria sem medo
em qualquer situação imprevisível, vivendo só para ver o que o acaso pode oferecer.

Alí mesmo eu também gostaria de ver você, sem mim.
Gostaria de te ver passar, flertar. Só para ver você me olhar pela
primeira vez, mas eu seguiria.

Seguindo pra onde nunca fui, sozinha, eu perderia minhas certezas, vestiria o mau gosto, lamberia as feridas, sucumbiria aos meus defeitos, e finalmente...
enlouqueceria até perder o juízo. Tudo por acaso.

quarta-feira, julho 15, 2009

...E a ponta de um torturante band-aid no calcanhar.

Acabo de chegar a conclusão de que sou uma pessoa angustiantemente romântica.

Penso o dia inteiro em personagens apaixonadas de tal forma que só a insanidade explicaria. Isso, claro, se alguém tivesse pedido explicação.


Vejo olhares que se cruzam em inferninhos de neon, homens tristes e mulheres amargas que aplacam sua solidão com amores cortantes e instantâneos, nada além do velho e conhecido amor a primeira vista.

Penso na paixão pelos detalhes, e no fascínio por defeitos que tomam ares de beleza diante de olhos que só conseguem ver o belo. Homens comuns que se tornam poetas diante de suas musas. Eu acredito mesmo que o amor potencializa tudo.

E no fim de toda esta entrega, é o abandono o ponto alto do amor. Tanto sentimento só poderia acabar em desencanto, por falta de argumento ou simplesmente por não conseguir levar adiante um amor tão enlouquecido.

Confesso que, às vezes, eu os até suicido.

Meus amantes morrem, se separam, se cortam, mas todos, levam consigo a experiência do mais primitivo amor. Todos saem pela porta da frente pensando em "São dois pra lá, dois pra cá "prestes a encontrar outro amor ensandecido. É certo que sempre haverá um alguém desolado, uma metade de laranjinha, sentado sozinho ou sozinha num canto de um inferninho de neon...

quarta-feira, julho 01, 2009

Para Janine

Saudade, larga dela e deixe-a caminhar
Eu sei que ela é doce e boa de apertar, mas a menina precisa partir.

Ela precisa ver como brilha o sol de lá. Pois ela, só ela, consegue enxergar a beleza incrustada no caminhar lento e desajeitado dos caracoizinhos que ela ariscamente coleta para depois dissecar.

Assim, pode parecer cruel mas vindo de Janine é doce e até bonito de se olhar.
É claro que eu não vou experimentar, mas o seu amado até no mangue já entrou só para vê-la trabalhar.

Portanto saudade, deixe-a descansar, alivia este coraçãozinho que só tem amor pra dar.


Parabéns querida.

quinta-feira, junho 04, 2009

a saudade da menina

um teto alto, uma cama antiga e grande demais para a menina que estende o corpo ocupando-a de um lado ao outro, a janela aberta deixa entrar a fresta de sol que aquece seu corpo e embala um sono de poucos minutos.

o som da rua, que também entra pela janela, deixa a menina mais segura, são sons familiares que ela ouve desde a mais nova idade. Alguém lá fora escuta uma música triste que a menina sabe de cor.

Dentro do seu quarto esconderijo ela guarda os mais íntimos e insignificantes segredos, guarda um lado de si preservado só pra ela, um lado que não é especial, nem extraordinário mas é só dela. Os sonhos perdidos ficam lá, uns amores pequenos, algumas lágrimas sem verdadeira razão, mas ainda assim derramadas.

Um casulo, uma cápsula protetora, de onde, um dia, ela teve que sair pra poder ver mais, mas sem a menina o quarto virou pó, não guarda nada, só as paredes descoradas estão lá, embora a janela ainda se abra para o sol entrar.

segunda-feira, maio 18, 2009

Sobre amigos

Malditos pepinos.
Eu odeio, tu odeias, todo mundo odeia mas a Lívia ama!

minha casa

Acordo, tento identificar que teto é este que me cobre, mas não consigo.
As paredes são estranhas, parecem de mentira, nunca povoaram meu mundo, não sei como foram parar ali, elas circundam-me sem permissão.

A minha nova casa era feita de antigos hábitos, revestimentos e azulejos antiquados. Ela ficava numa velha rua, cheia de casinhas iguais a esta, onde crianças perpetuavam brincadeiras do passado, os muros tinham musgo verde estragando a pintura, e as casas tinham varandas, alpendres e cadeiras de ferro pintadas de branco.

Lá dentro os móveis, paredes e todo o resto eram romanticamente desgastados, com cheiro do tempo que cada coisa viveu. Nesta casa eu tinha a poltrona verde oliva da minha avó, a penteadeira da minha mãe, e o aparador que na época nem tinha este nome. Lá guardei lembranças daquilo que eu nunca vou querer esquecer, memórias que moldam meu presente, mas deixam minhas paredes sem alma.

Eu preciso de uma casa mais interna, com cantos onde eu possa me enfiar. Gosto de pensar num lugar onde eu possa entrar e mudar radicalmente minha impressão da rua. Um esconderijo bem a vista de todos.

Não sei bem o que fazer, será que esta apatia é culpa delas ou minha? Afinal, talvez o que falta na minha casa sou eu. As tardes ouvindo música, as conversas com a Fernanda, ou as horas de espera que antecediam a chegada do meu amor, uma briga, uma festa, uma chegada. Faltam meu pai e minha mãe deixando a casa ocupada e barulhenta às seis da tarde, faltam minhas irmãs me tirando espaço que a tarde garantia.

Penso como será para ele que parece se sentir tão à vontade com nosso espaço, que vai e vem calmo sem reparar no aparador ou na poltrona verde oliva. Sinto-me mais responsável ainda em deixar o piso de ardósia mais aconchegante. Olho demoradamente minha nova vida e me pergunto se será possível imprimirmos nossos breves contos nestas chapas de mdf que não irão guardar cheiro algum, mas ele está em paz, e eu estou aqui delirando sobre coisa alguma.
--

Conselho de mãe

Sangre menina.

Nunca mais escreva. Nem mais uma palavra.

Não faça ponta no lápis, não sinta culpa alguma por isso.

Antes você precisa entortar, sentir arder.


Aborte esse filho mal criado, mas, por favor, chore por ele.

Sofra como se deve sofrer, sem comprimidos nem cobertas.

Aceite, filha minha, admita a aspereza.

Não há sentido em amenizar quase nada.

Não há razão para cultivar uma vida pálida.

Ah! filha do meu coração, perdão.

Perdão, por não fazer mais por você, mas para esta vida valer de verdade é preciso

se sujar um pouco mais, corte-se menina, corte-se profundamente, mas não morra.

Viva para ver cicatrizar.

sexta-feira, maio 16, 2008

Desordem!

Gina acordou meio Joy division, mas nenhuma música tocou aquele dia. E era por isso que ela sentia, sabia mesmo, que naquela quinta nada de bom aconteceria.

No trabalho, durante toda amanhã, a moça corria os olhos pelo relógio, ela almoçou sem fome, terminou seu trabalho e saiu sem planos.

Saiu para dançar sozinha, seu ânimo não merecia amigas, ou combinações, merecia só acabar. Então Gina foi para o Laos, um inferninho onde ela sabia que poderia encontrar conhecidos, gente pouco íntima, o que seria ótimo. Aquele dia deveria passar superficial, sem nenhuma recordação, nada pra lembrar.

A moça bebeu e dançou como se não tivesse mais ninguém ali. Os mais próximos estavam ficando embaraçados com a presença dela, que se mexia parada se debatendo, numa interpretação muito sofrida de tudo que tocava.

Gina não sabia dizer o que realmente a incomodava, mas tinha certeza que deveria fazer passar de alguma forma. À medida que ia dançando a angustia ia aumentando, bem Joy division mesmo, por isso ela sabia que era só aceitar, deixar tudo subir, tomar intensidade, e no momento do ápice uma nota cortante entraria e só assim a música teria fim.

quinta-feira, março 13, 2008

Stand By

Partes para onde?


Vais para longe de mim, onde qualquer distância é ruim demais.


Partes para quê? Para ver?

Saibas que quem vai, já não volta mais,

mesmo que retorne.


Partes meu coração.


Jaz outro que nunca mais voltará a ser o mesmo.

Jaz outro que nunca mais voltará para mim.

Para mim resta um cheiro perdendo a essência.

Um dia que se estende e nunca acaba,

Uma noite que chega e se arrasta.

A espera vai de condição para estado.O estado que deleta, vira do avesso.

terça-feira, abril 24, 2007

Delírio sobre a Lucidez, ou só um pouquinho.

Uma crise, um problema sério, estou farta de mim: das minhas maneiras, minhas roupas, minha postura, farta, farta, farta.... da minha altura. 10% de mentira, estou farta disso também.

Exorcismo
Primeiro revela-se os demônios, depois deixo-os rir da minha cara, em seguida queima-los-ei com muita graça, pois sim senhor, sou uma mulher que acima de tudo busca ter, ainda nesta vida, metade da finesse de Audrey Hepburn, em bonequinha de luxo.

Demônios.
O primeiro demônio: dias úteis. 5!
O Segundo demônio: horário comercial. 8!
O Terceiro demônio: horário bancário. 4! + pestes = banco 24h que só funciona12!
O quarto e pior deles: dia do pagamento. Apenas 1 miserável dia!

Surto
Aqui os diabretes se divertem.
Diante de toda a matemática é necessário um surto, imploro a Deus por um surtinho, só na cabecinha, mas não, a razão predomina, então eu acolho meus diabretes no colo, um a um, e vou levando-os sentindo as espetadas, ciente do quanto cada um deles é indispensável para a minha vida. Mantenho-os aquecidos, e por vezes, flerto com eles. Glória! Até que os danadinhos percam a graça em mim e me abandonem em farrapos.

sexta-feira, julho 14, 2006

Só nos restou Dionísio


Era manhã de sábado, fazia muito tempo que Maria não acordava numa manhã de sábado. Ela se levantou, com preguiça se olhou no espelho e demorou. Maria apertava os olhos, se olhava de lado, respirou fundo e nada. Nada naquela mulher a fazia lembrar de Maria, quem era aquela mulher anulada? Quem era aquela porra de mulher genérica? Quem era aquela farsa? Maria sentia o corpo doer, esticou-se e foi para a cozinha preparar um café, um café melhora tudo.

A moça olhava a cozinha, um cômodo sem identidade, Maria cujo nome bíblico também a ofendia tomava seu café na cozinha sem graça e divagava com a empregada sobre o feminino: Nada é mais feminino que a loucura. A insanidade, essa foi a grande vingança de Deus, ou nem isso, talvez tenhamos sido só uma piada sem graça. Ainda se alguém me explicasse qual a finalidade de se criar um ser totalmente controlado por hormônios. Gostaria de entender qual a razão de dar continuidade a uma raça que só se repete. Mulheres, oh Deus, me diga qual a razão?

Por que deixar toda a confusão, e impulsão embutidas em nós? Será preciso nascer da cabeça de Zeus para conter nosso instinto de destruição? Nossa grande dádiva é também a nossa perdição, nós parimos e matamos todos os dias. Eu não suportaria uma filha, tampouco um filho, os homens são rasos, uma defesa contra o amor insano de suas mães, amantes e filhas.

É chegado o momento de aceitar a nossa condição, não podemos mais negar a loucura, ela é inata, é a mais pura representação feminina, a histeria é divina. Hoje, Deus, nós faremos as pazes, do prédio mais alto eu lhe darei a minha devoção, já que me fizeste esta criatura louca e destrutiva, eu não negarei, tomarei a atitude mais feminina de minha vida, louca e destrutiva eu serei.

segunda-feira, maio 22, 2006

1/4 para dormir

Eu não sei dormir, nunca aprendi.

- Vá para casa moça a senhora está com uma cara horrível.

- Que homem cruel, eu jamais diria isso a alguém.

Passar tanto tempo no meu quarto me faz pensar em como eu poderia me apresentar para alguém apenas mostrando este cômodo, empilhado de objetos inúteis que eu não sei como me desfazer, sem espaço apesar de grande, e sem conseguir cumprir com seu propósito inicial. Um cômodo que tem bem pouco sentido de ser. Será que alguém já morreu de insônia, se morreu provavelmente foi de tédio.

Catarina se levantou, pintou a cara e trocou de roupa, com a intenção sincera, de pela manhã, pintar todas as paredes do seu quarto, saiu pela madrugada decidida a fazer somente aquilo que ela nunca havia feito. A moça foi para um bairro que nunca havia estado antes e entrou no bar mais movimentado, ela sentia que podia fazer algo a respeito de não caber em si, a vida não podia ser tão dolorosa, provavelmente ela estava no caminho errado, o que explicava todo o seu desconforto.

- Tá perdida madame?

- Não moço, pelo contrário, posso me sentar?

- Claro. De onde a senhora é?

- Daqui mesmo.

- Acho pouco provável moça, por essas bandas todo mundo se conhece ou pelo menos tem a cara familiar, e uma moça como a senhora, dá pra ver que não é daqui.

- Não senhor, é que eu andei muito tempo sem saber aonde ir, me perdi algumas vezes e acabei ficando insegura para andar sozinha, mas agora já estou acostumada a tudo por aqui.

- Olha moça, bom pra senhora, agora eu tenho que ir, foi um prazer.

- Pra onde o senhor vai?

- Bom, para onde eu vou a senhora provavelmente nunca foi e nem nunca irá se depender de mim.

- Pois é exatamente para onde eu gostaria de ir, o senhor me leva?

- Não senhora.

- Por favor

-Olha moça, o lugar é embaçado, quem entra lá só Deus sabe se sai.

- Por favor, alguma coisa me diz que eu vim aqui, hoje, justamente para este propósito.

- Bom, então vamos logo, a senhora está avisada, é maior e vacinada, né? E se alguma coisa acontecer, eu já te falo dona, não vou poder fazer nada pela senhora.

- Muito obrigada moço, e antes de mais nada meu nome é...

- Nem precisa me falar, a partir de agora a senhora é Madá e eu sou Gabriel.


O lugar, que só Deus sabe se quem entra sai, era uma casa velha, no meio da periferia, sem acabamento com os tijolos a mostra, uma velha abriu a porta para os visitantes entrarem, lá dentro uma grande sala abrigava uma reunião de umbandistas, eles cantavam e dançavam os orixás, pouco a pouco as entidades eram incorporadas pelos “aparelhos” que só eram notados pelo lençol branco colocados em suas costas, mais adiante, depois de uma cozinha grande e cheia de caldeirões espalhados por ela, uma porta fechada.

- Madá, aqui é o lugar, quer mesmo entrar?

- O que tem ai dentro? Perguntou Madá com um jeito divertido

- Nada que tenha a ver com o que você viu na sala. Nada que vá fazer bem a mim ou a você

- Então por que você vai entrar?

- Porque eu preciso, disse Gabriel parecendo honestamente agoniado. Só a trouxe aqui por achar que talvez... você precise também.


Madá já não parecia divertida, ela finalmente percebia a seriedade da situação, pensou em voltar, mas sabia que não poderia. Finalmente abriu-se a porta o que Madá viu parecia enlouquecedor, sentiu náuseas por causa do cheiro forte, um homem a puxou pelo braço com força a deixando sem reação no meio de um monte de gente se contorcendo de dor. Ela viu uma moça sangrando, pensou em tentar ajudar, mas logo percebeu que a menina se feria com uma lâmina. Uma pontada de dor no seu estômago a alertava do perigo de estar ali, ela pensou em se ferir também, tentando evitar que alguém fizesse antes dela, ao se abaixar para pegar uma lâmina, um homem, negro encharcado de uma mistura de suor e sangue sorria para ela mostrando a gengiva, sem dentes e sangrando. Ela engoliu seco e entendeu o recado, naquele lugar cada um teria uma experiência diferente.

Catarina foi recolhida numa praça no centro com os dedos sem unha, ela estava ferida e bastante fraca, a levaram para um hospital aonde permaneceu por duas semanas até se recuperar. De volta ao mundo, a moça foi para casa feliz por constatar que estava disposta a deixar tudo como estava, seu quarto parecia em perfeita harmonia, paredes, móveis, trecos, tudo,finalmente no seu devido lugar.

O bom filho

Desde cedo ouvia seu pai dizer que quando o fim estivesse próximo ele saberia:

- O fim dos dias meu pai?

- Sim

- Então todos saberão pai?

- Não, meu filho, mas você decerto saberá.

João sentia um carinho enorme pelo pai, mas julgava-o culpado por várias decepções em sua vida, ele achava que o velho havia depositado mais credibilidade do que devia nele, mais que expectativas paternais, mais que projeções, o velho era realmente exagerado no que dizia respeito ao filho.

João estava com 30 anos, morava sozinho, tinha um bom trabalho, uma namorada, bons amigos,visitava a mãe com regularidade controlada, caso contrário só visitaria a velha viúva uma vez por ano, o amor que ele sentia pelo pai não era nem de perto igual ao que sentia pela mãe, mais uma vez o exagero do pai havia atrapalhado a sua vida, a mãe sempre se sentiu diminuída perto dos dois. Vários foram os esforços de João para introduzir a mãe às longas conversas que ele tinha com o pai, mas o velho nem se dava conta da presença da esposa.

Com a morte do pai, João não teve alternativa a não ser sair de casa, sua mãe estava se tornando histericamente perfeccionista e exigente em relação a sua vida: “Trate logo de ver um doutorado, seu pai não lhe criou para isso, e essa menina insossa? É sua namorada, não a traga aqui, a insignificância dela ofende a memória de meu marido.Por Deus João ,seu pai não foi um pai comum, não seja assim, não seja ingrato como são todos os filhos.

Ele não culpava a velha, sabia de onde vinha todo rancor. O que ele não sabia era como o pai estava certo. O velho sempre o assustava com aquela conversa sobre: “O fim dos dias meu filho, você decerto saberá, use esse privilégio com carinho, use com amor.”

quarta-feira, abril 12, 2006

Deixe a menina feia em paz!

O rapaz a olhava com interesse, mas Belinha é tímida, talvez um pouco mais que isso.
Avaliava as circunstâncias, será que valia a pena se expor, evitava desgastes.
Ele parecia valer mesmo a pena, tão bonito, falava pouco, reservado, o que lhe atribuía um charme angustiante. Algumas garotas se aproximam dele, ele sorri para elas e olha de lado para Belinha, que quase morre, a moça fica paralisada, com cara de boba segurando para não rir e engasgar, abaixa a cabeça esperando que ao voltar ele já esteja olhando para o outro lado, é incapaz de manter o olhar dele com o seu, apesar de querer muito.
Belinha pensa como seria bom ter um pouco mais de ousadia, bebi um demorado gole, e ri da esperança de ficar embriagada com aquele drink de morango. Pedi uma Gin tônica.
Bebe tudo, mesmo tendo a impressão de estar virando um vidro de perfume barato. O rapaz a olha intrigado, com uma expressão de surpresa. Belinha sorri desconcertada e oferece o copo, ele já não a olhava mais. Belinha murcha. Toda essa movimentação a deixa exaurida, com vergonha de si, a moça pedi a conta. Evita olhar para o rapaz, que se aproxima sem que ela pudesse ver, sorrindo ele se apresenta: - Oi, meu nome é Roberto. Eu estava alí te olhando, queria te dar meu telefone, quem sabe a gente poderia se encontrar um dia desses e conversar um pouco.

Belinha ri com os lábios cerrados, olha para aquela figura linda, mãos lindas, dentes lindos, movimentos lindos, harmônicos, diferente dela, que parece poder desabar a qualquer minuto, pensa no quanto aquilo tudo deveria fazer um bem enorme as pessoas, mas não a ela, ela só conseguia pensar que ele, no mínimo, deveria ser famoso por gostar de garotas estranhas, sem sal e freaks, não, essas coisas não aconteciam com ela. Belinha sabia que tudo que ela conseguiria despertar em pessoas como Roberto era aversão ou no máximo culpa, ele não tinha se dado ao trabalho nem de perguntar seu nome, então Belinha se desculpa e recusa a boa vontade e o telefone do rapaz. Ri mais uma vez de si mesma, encontrando uma resposta para a situação toda, o rapaz deve ser um desses estudantes de psicologia em estudo de campo, e vai embora achando graça, tentando se convercer de sua explicação.

terça-feira, março 28, 2006

Diassujos

Em cidades muito cheias a ansiedade é uma constante, uma resposta que ameniza a loucura, as pessoas envelhecem, os objetos estragam e são substituídos por outros. Os amantes, o chuveiro, a porta, o ferro, a cafeteira, a geladeira, o porteiro, a TV, o computador. O tempo destrói tudo.

Em cidades como essas a morte perde o sentido real, ela vira tempo de folga ou tempo perdido, tempo cronometrado: três horas de velório, quinze minutos de missa, dez minutos para o enterro, cinco dias de descanso para os filhos, três para os netos. Embora em cidades muito cheias a morte continue sendo uma cusparada na cara, chega na hora que quer, de madrugada ou em pleno horário de almoço, atrapalha o trânsito, atrasa projetos, deixa pessoas esperando.

O relógio da parede da cozinha avisava que já era tempo de ir trabalhar então eu tomei, resignada, meu café gelado, saí com o hálito pegajoso, comprei uma bala, acenei para o senhor dono da banca de revistas, que sempre me avisa quando a PREACHER chega, e tomei o carro de “aluguel.” Não me pergunte a razão, mas eu achei legal falar assim. Então eu tomei o carro de aluguel para chegar pontualmente às 08h00min no trabalho e terminar meus projetos dentro dos prazos. A pessoa que cumpre os prazos sempre recebe uma premiação, e ela não é nada ruim.

Fim do dia no escritório.

Agora é a minha vida social quem exige de mim, vamos todos para o pub mais cheio da cidade, sentir muito calor, ouvir pessoas gritando e tentar conduzir alguns flertes em alguns homens embriagados, cansados, agitados, e tentar ao máximo desacelerar o ritmo que nos é imposto, na verdade não é bem imposto, mas como a premiação é boa a gente não se importa de viver com o pique de um cheirador, produzindo 8 horas por dia, 7 dias na semana. Conversas sobre nada, cheia de palavras rebuscadas, novas ou velhas deixavam o ambiente mais cheio, tudo programado, até o drink que uma moça deve tomar se ela quiser ser “in” (in - um termo descolado terminantemente proibido de se pronunciar se você não quiser denunciar a sua intenção de ser “ “ ... você sabe!)

Fim do dia social


Casa, lugar pouco acolhedor, porém bastante prático. É preciso tempo para familiarizar com o ambiente. A cama é conhecida já o sofá... parece que foi escolhido por um estranho, e de fato foi, eu gostaria de ver a senhora mãe dele sentadinha vendo TV nessa porcaria, desenhado para um camelo se sentir confortável. Mas enfim lar doce lar, é hora de dormir, isso se eu quiser ter no mínimo 6 horas de sono, sendo assim, chapada eu apago e sonho.

O Sonho.

Eu volto ao pub, um homem enfia a mão na calça e balança o membro pra mim eu pego a pinça e morro de rir. Do outro lado uma mulher parece cair, mas permanece em pé, a música é boa, mas não dá para ouvir direito, um homem chora copiosamente no balcão, eu sinto por ele, exposto ali à luz do néon, atrapalhando os pedidos de tequila da moça de rosa, o homem que chorava me leva para casa, num carro de teto baixo, tipo baratinha, as janelas estão fechadas e por isso eu não consigo respirar, mas tenho medo de pedir para abrir, evito chamar a atenção dele para mim, tento desaparecer, não consigo, minhas mãos denunciam minha aflição, o homem segura as minhas mãos que estavam enterradas entre as minhas pernas, ele as aperta entre as dele, em seguida agarra o meu pescoço e sorri dentes amarelados de cigarro e café pra mim. Eu sinto vontade de morrer e acabar logo com aquilo, engolir se tornava penoso.

Eu acordo com a sensação de ter lágrimas para chorar, mas não tenho. Seguro meu pescoço tentando sentir a mão novamente. Suada, eu me sinto infinitamente sozinha e amedrontada, eu rezo para Deus me ajudar, rezo para que ele seja meu pai, me repreendo por não acreditar nisso, tornaria tudo mais fácil, acho graça da idéia de ir a uma igreja, de madrugada, depois do Pub, a única hora que seria concebível a idéia de parar.

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sexta-feira, março 17, 2006

O último adeus de Liana

Seco, o tempo estava seco. Não por causa do sol. Não chovia, não fazia sol.
Naqueles dias escuros só ventava. Liana minha noiva não se abalava com isso.
Eu, Joaquim me sentia mal, bem mal, miúdo, encolhido para ser mais exato.
Mas nada disso importa. Liana tratava de velhos doentes, limpava os doentes e lia para eles, fazia isso todas as tardes. E fazia bem, todos os velhos a adoravam por isso. Mas Liana sempre achava que não fazia o suficiente e por vezes se considerava egoísta por pensar em largá-los. Ela sempre dizia com aquele jeito lamurioso dela de falar:

- Puxa Quinzinho, eu só me permito falar essas coisas para você, pois é vergonhoso.
Mas é que me deixa mesmo angustiada, vê-los definhar, eu sinto pena. E é horrível sentir pena, porém eu não consigo identificar qualquer tipo de dignidade na condição deles, eu não consigo. E nessas horas tudo que passa pela minha cabeça é nunca mais voltar lá, fingir que não existem velhos no mundo e tentar morrer antes dos 60 anos. Estúpida! Isso é o que eu sou, uma puta egoísta e estúpida. É por demais penoso vê-los sorrir tão inocentes, sem dentes e com a pele fina e enrugada. E quanto mais aberto for o sorriso mais explícita é a tristeza que eles trazem. É mortificante receber deles um carinho que obviamente não é por mim. Mas Quinzinho o que mais me faz sentir uma pessoa dura é saber que eu só faço isso por eles por culpa, culpa do asco que eu sinto pela degradação deles. Quinzinho eu os odeio e me odeio por isso. Eles me fazem sentir suja, cada banho que eu dou é uma tentativa inútil de me limpar da minha imundice.

Mil vezes eu disse a Liana que ela só estava sendo honesta, que grande parte das pessoas mundo se sentia da mesma forma em relação a velhice mas que ninguém dizia nada, nem tão pouco fazia. E que ela estava sendo boa por tentar trabalhar uma fraqueza de forma tão positiva. E por vezes funcionava, e por vezes voltavam suas perturbações, embora Liana nunca deixasse de ir todas as tardes ao Hospital do asilo.

Todos os dias depois do almoço eu pegava Liana em sua casa e a deixava com os velhinhos, mas nesse dia ela já tinha saído. Eu estranhei, mas segui para o meu trabalho sem pensar nas razões que fariam a moça mudar nossa rotina. Na verdade eu só pensava bravo na falta de uma ligação que me poupasse o tempo de ir até a sua casa à toa.

O vento gritava do lado de fora da janela, eu sentia falta dela, mal podia esperar a hora de ver Liana. Era confortante o tanto que ela achava romântico aqueles dias sem vida. Mas Liana não voltou para casa. Naquele dia tão pouco ela foi ver os velhos, Liana havia desaparecido. Choveu durante toda a madrugada, toda a gente saiu para procurar Liana, que quase ao amanhecer apareceu, despudoradamente morta, com sua saia levantada e entre as pernas uma carta que tinha instruções para ser publicada no jornal, o que não aconteceu. Segue trechos da carta de Liana:

Eu espero que minha morte seja simbólica, espero que dê coragem a todos para dizer o que realmente são, eu espero que todos me venerem com ódio, que digam, maldita Liana, putinha barata, e admitam no seu íntimo, ela fez o que eu queria ter feito.
Assumo não, declaro aqui que fui suja, bolinava os velhos que só não me estupravam por não terem força e me divertia com isso. Defecava nas senhoras mudas e para o restante contava-lhes todo tipo de bizarrice com pessoas das suas famílias. E me divertia muito com isso, por vezes acertava. Vocês devem se lembrar do caso da menina que era estuprada pelo pai, o pai era filho da Dona Neusa, uma velha muito escrota que eu cuidei até a morte. Coincidentemente, D. Neusa faleceu depois de ouvir a minha história sobre seu filho que chupava a netinha todos os dias na esquina da escola. D. Neusa não agüentou a emoção de escutar tamanha sujeirada sobre o filho, sorte dela que morreu sem saber dos meus poderes premonitórios.
Enfim, morro feliz e mais vazia... vocês, hipócritas, podem imaginar como é duro carregar uma mentira por tanto tempo, eu precisava contar, precisava que toda a gente soubesse. Então, aqui jaz Liana, uma putinha imunda que de tão leve caiu do despenhadeiro sem calcinha.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Ave Isolda!

A lavadeira se vestiu de princesa e saiu para a avenida, onde foi saudada como tal.
Na frente de Isoldinha era essa a imagem que se formava e, na mente dela, a conclusão a qual chegara, fora de que se a lavadeira virou princesa poderia ela também se tornar uma nobre senhora.

Isoldinha fora abandonada pelo noivo, o rapaz a trocara por outro varão. Acabando de vez com a auto-estima da moça que já se encontrava bem miudinha. Era carnaval e, normalmente, todos estranhavam a falta de alegria de Isolda com a festa. Era a maior festa do ano, onde até as mães relaxavam um pouco e iam se enfeitar também.

Mas Isoldinha sempre foi uma moça quieta, com prazeres muito simples, um romance poderia ser lido por ela várias e várias vezes sem lhe deixar de ser interessante.

Mas neste carnaval Isoldinha aceitou o convite das colegas e foi para a rua fantasiada, com a cara e as unhas pintadas. Ela estava mesmo bonita, um pedaço de carne como lhe disse o amigo do irmão, um rapaz que a mãe já tinha advertido: Neguinho deveria ficar bem longe.

Isoldinha descobriu na passarela do samba sua nobreza, e como era farta.
Dançou sem se preocupar, sorria sem pudor aos que a olhavam, mas não se demorava em desviar o olhar e deixá-los ansiosos por uma próxima olhadela, que a moça cuidou para que não houvesse.

Isoldinha dançou até os pés não suportarem mais. Parou para descansar. Na frente de Isoldinha a lavadeira levantava o vestido de princesa despindo se da sua nobreza e entregue aos foliões que iam ao delírio com a sua figura nua.

Isoldinha viu também Alberto, o ex-noivo com o famigerado amigo de Neguinho.
Viu Neguinho se contorcer para melhor ver a princesa lavadeira, viu suas amigas, boquiabertas, amedrontadas com o fascínio que a nobre nua exercia sobre seus pares.

Isoldinha foi para casa. Caiu lhe a nobreza, a produção feita para a festa já havia sido lavada pela chuva. Mas a moça estava satisfeita, pela primeira vez desde menina, Isolda conseguiu compreender e se entregar ao carnaval. Debilmente ela se divertiu, cantou, dançou e sentiu aquela força inexplicável que fazia a multidão deixar os grilhões em casa.
E agiu, conscientemente, como uma tola!

Já na porta de casa, um folião que vinha pulando, sem camisa e com o sorriso mais honesto e embriagado na cara, sacou-lhe um beijo na boca, deixando-a em seguida, ainda pulando, mandando beijos pelo ar e agradecendo a bondade da princesa para com os vossos humildes súditos.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Estragos!

E lá se foi a alegria
Pisando forte
Jurando nunca mais voltar.

Levou na mala
Roupas sujas e
Lágrimas não choradas.

Para não contrariar
Abro a última garrafa
E vou de encontro à última gota.

Acordo dando razão
À sua partida e à
Sobra de seus pertences.

E, só por ironia
O dia não está cinza
A luz brilha na minha cara


Muito romântico.
Minha cara partida
Exposta, ferida à luz do dia.


Ai meus ais!
Como pode uma gota
ser tão destrutiva?


O que dói não é o abandono
Sua partida, desde a chegada,
Era esperada.


Mas partidas sem despedidas
Não finalizam nem iniciam nada
Só este poema sem rima e sem graça.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Ode a Ana

Deus me traga Ana de volta, estragada.

Eu a quero antes de conhece la, antes das cinzas de cigarro no meu lençol,
antes do sol nascer. Sem risadas histéricas e sem saber o preço de suas
calcinhas. Traga Ana sem intimidade, sem olhares de entrega e sem lágrimas
no rosto. Traga Ana para mim sem amor.

Quero Ana de volta vendada, travada com lacre de segurança.


Afasta de mim essa mulher que sorri todos os seus dentes, essa Ana maquiada
e penteada, falante e preguiçosa, entregue e amante, cheia de medos e
desejos maternais.

Afaste a da minha casa e acima de tudo, Deus, afaste seus braços compridos
que parecem poder envolver o mundo.

De onde saiu essa mulher amante que parece não querer nada além de amar. Ana
ama tudo, ama a vida, a mim, aos nossos futuros filhos. Ana não é mais, nem
de longe, a mulher que costumava ser.


Eu quero Ana de volta nem que eu tenha que perder. Eu quero Ana me
ignorando, falando baixo e rasgado, odiando a tudo e a todos. Como eu podia
imaginar que tudo que Ana queria era amar. Ana perdão, mas seus filhos vão
morrer antes de nascer. Ana que ama vai chorar e eu vou perder. E no final
eu terei apenas o pior de você que na verdade foi o que eu sempre amei.
Perdão por te lá feito se entregar, mas você exagerou, Ana.