terça-feira, abril 24, 2007

Delírio sobre a Lucidez, ou só um pouquinho.

Uma crise, um problema sério, estou farta de mim: das minhas maneiras, minhas roupas, minha postura, farta, farta, farta.... da minha altura. 10% de mentira, estou farta disso também.

Exorcismo
Primeiro revela-se os demônios, depois deixo-os rir da minha cara, em seguida queima-los-ei com muita graça, pois sim senhor, sou uma mulher que acima de tudo busca ter, ainda nesta vida, metade da finesse de Audrey Hepburn, em bonequinha de luxo.

Demônios.
O primeiro demônio: dias úteis. 5!
O Segundo demônio: horário comercial. 8!
O Terceiro demônio: horário bancário. 4! + pestes = banco 24h que só funciona12!
O quarto e pior deles: dia do pagamento. Apenas 1 miserável dia!

Surto
Aqui os diabretes se divertem.
Diante de toda a matemática é necessário um surto, imploro a Deus por um surtinho, só na cabecinha, mas não, a razão predomina, então eu acolho meus diabretes no colo, um a um, e vou levando-os sentindo as espetadas, ciente do quanto cada um deles é indispensável para a minha vida. Mantenho-os aquecidos, e por vezes, flerto com eles. Glória! Até que os danadinhos percam a graça em mim e me abandonem em farrapos.

sexta-feira, julho 14, 2006

Só nos restou Dionísio


Era manhã de sábado, fazia muito tempo que Maria não acordava numa manhã de sábado. Ela se levantou, com preguiça se olhou no espelho e demorou. Maria apertava os olhos, se olhava de lado, respirou fundo e nada. Nada naquela mulher a fazia lembrar de Maria, quem era aquela mulher anulada? Quem era aquela porra de mulher genérica? Quem era aquela farsa? Maria sentia o corpo doer, esticou-se e foi para a cozinha preparar um café, um café melhora tudo.

A moça olhava a cozinha, um cômodo sem identidade, Maria cujo nome bíblico também a ofendia tomava seu café na cozinha sem graça e divagava com a empregada sobre o feminino: Nada é mais feminino que a loucura. A insanidade, essa foi a grande vingança de Deus, ou nem isso, talvez tenhamos sido só uma piada sem graça. Ainda se alguém me explicasse qual a finalidade de se criar um ser totalmente controlado por hormônios. Gostaria de entender qual a razão de dar continuidade a uma raça que só se repete. Mulheres, oh Deus, me diga qual a razão?

Por que deixar toda a confusão, e impulsão embutidas em nós? Será preciso nascer da cabeça de Zeus para conter nosso instinto de destruição? Nossa grande dádiva é também a nossa perdição, nós parimos e matamos todos os dias. Eu não suportaria uma filha, tampouco um filho, os homens são rasos, uma defesa contra o amor insano de suas mães, amantes e filhas.

É chegado o momento de aceitar a nossa condição, não podemos mais negar a loucura, ela é inata, é a mais pura representação feminina, a histeria é divina. Hoje, Deus, nós faremos as pazes, do prédio mais alto eu lhe darei a minha devoção, já que me fizeste esta criatura louca e destrutiva, eu não negarei, tomarei a atitude mais feminina de minha vida, louca e destrutiva eu serei.

segunda-feira, maio 22, 2006

1/4 para dormir

Eu não sei dormir, nunca aprendi.

- Vá para casa moça a senhora está com uma cara horrível.

- Que homem cruel, eu jamais diria isso a alguém.

Passar tanto tempo no meu quarto me faz pensar em como eu poderia me apresentar para alguém apenas mostrando este cômodo, empilhado de objetos inúteis que eu não sei como me desfazer, sem espaço apesar de grande, e sem conseguir cumprir com seu propósito inicial. Um cômodo que tem bem pouco sentido de ser. Será que alguém já morreu de insônia, se morreu provavelmente foi de tédio.

Catarina se levantou, pintou a cara e trocou de roupa, com a intenção sincera, de pela manhã, pintar todas as paredes do seu quarto, saiu pela madrugada decidida a fazer somente aquilo que ela nunca havia feito. A moça foi para um bairro que nunca havia estado antes e entrou no bar mais movimentado, ela sentia que podia fazer algo a respeito de não caber em si, a vida não podia ser tão dolorosa, provavelmente ela estava no caminho errado, o que explicava todo o seu desconforto.

- Tá perdida madame?

- Não moço, pelo contrário, posso me sentar?

- Claro. De onde a senhora é?

- Daqui mesmo.

- Acho pouco provável moça, por essas bandas todo mundo se conhece ou pelo menos tem a cara familiar, e uma moça como a senhora, dá pra ver que não é daqui.

- Não senhor, é que eu andei muito tempo sem saber aonde ir, me perdi algumas vezes e acabei ficando insegura para andar sozinha, mas agora já estou acostumada a tudo por aqui.

- Olha moça, bom pra senhora, agora eu tenho que ir, foi um prazer.

- Pra onde o senhor vai?

- Bom, para onde eu vou a senhora provavelmente nunca foi e nem nunca irá se depender de mim.

- Pois é exatamente para onde eu gostaria de ir, o senhor me leva?

- Não senhora.

- Por favor

-Olha moça, o lugar é embaçado, quem entra lá só Deus sabe se sai.

- Por favor, alguma coisa me diz que eu vim aqui, hoje, justamente para este propósito.

- Bom, então vamos logo, a senhora está avisada, é maior e vacinada, né? E se alguma coisa acontecer, eu já te falo dona, não vou poder fazer nada pela senhora.

- Muito obrigada moço, e antes de mais nada meu nome é...

- Nem precisa me falar, a partir de agora a senhora é Madá e eu sou Gabriel.


O lugar, que só Deus sabe se quem entra sai, era uma casa velha, no meio da periferia, sem acabamento com os tijolos a mostra, uma velha abriu a porta para os visitantes entrarem, lá dentro uma grande sala abrigava uma reunião de umbandistas, eles cantavam e dançavam os orixás, pouco a pouco as entidades eram incorporadas pelos “aparelhos” que só eram notados pelo lençol branco colocados em suas costas, mais adiante, depois de uma cozinha grande e cheia de caldeirões espalhados por ela, uma porta fechada.

- Madá, aqui é o lugar, quer mesmo entrar?

- O que tem ai dentro? Perguntou Madá com um jeito divertido

- Nada que tenha a ver com o que você viu na sala. Nada que vá fazer bem a mim ou a você

- Então por que você vai entrar?

- Porque eu preciso, disse Gabriel parecendo honestamente agoniado. Só a trouxe aqui por achar que talvez... você precise também.


Madá já não parecia divertida, ela finalmente percebia a seriedade da situação, pensou em voltar, mas sabia que não poderia. Finalmente abriu-se a porta o que Madá viu parecia enlouquecedor, sentiu náuseas por causa do cheiro forte, um homem a puxou pelo braço com força a deixando sem reação no meio de um monte de gente se contorcendo de dor. Ela viu uma moça sangrando, pensou em tentar ajudar, mas logo percebeu que a menina se feria com uma lâmina. Uma pontada de dor no seu estômago a alertava do perigo de estar ali, ela pensou em se ferir também, tentando evitar que alguém fizesse antes dela, ao se abaixar para pegar uma lâmina, um homem, negro encharcado de uma mistura de suor e sangue sorria para ela mostrando a gengiva, sem dentes e sangrando. Ela engoliu seco e entendeu o recado, naquele lugar cada um teria uma experiência diferente.

Catarina foi recolhida numa praça no centro com os dedos sem unha, ela estava ferida e bastante fraca, a levaram para um hospital aonde permaneceu por duas semanas até se recuperar. De volta ao mundo, a moça foi para casa feliz por constatar que estava disposta a deixar tudo como estava, seu quarto parecia em perfeita harmonia, paredes, móveis, trecos, tudo,finalmente no seu devido lugar.

O bom filho

Desde cedo ouvia seu pai dizer que quando o fim estivesse próximo ele saberia:

- O fim dos dias meu pai?

- Sim

- Então todos saberão pai?

- Não, meu filho, mas você decerto saberá.

João sentia um carinho enorme pelo pai, mas julgava-o culpado por várias decepções em sua vida, ele achava que o velho havia depositado mais credibilidade do que devia nele, mais que expectativas paternais, mais que projeções, o velho era realmente exagerado no que dizia respeito ao filho.

João estava com 30 anos, morava sozinho, tinha um bom trabalho, uma namorada, bons amigos,visitava a mãe com regularidade controlada, caso contrário só visitaria a velha viúva uma vez por ano, o amor que ele sentia pelo pai não era nem de perto igual ao que sentia pela mãe, mais uma vez o exagero do pai havia atrapalhado a sua vida, a mãe sempre se sentiu diminuída perto dos dois. Vários foram os esforços de João para introduzir a mãe às longas conversas que ele tinha com o pai, mas o velho nem se dava conta da presença da esposa.

Com a morte do pai, João não teve alternativa a não ser sair de casa, sua mãe estava se tornando histericamente perfeccionista e exigente em relação a sua vida: “Trate logo de ver um doutorado, seu pai não lhe criou para isso, e essa menina insossa? É sua namorada, não a traga aqui, a insignificância dela ofende a memória de meu marido.Por Deus João ,seu pai não foi um pai comum, não seja assim, não seja ingrato como são todos os filhos.

Ele não culpava a velha, sabia de onde vinha todo rancor. O que ele não sabia era como o pai estava certo. O velho sempre o assustava com aquela conversa sobre: “O fim dos dias meu filho, você decerto saberá, use esse privilégio com carinho, use com amor.”

quarta-feira, abril 12, 2006

Deixe a menina feia em paz!

O rapaz a olhava com interesse, mas Belinha é tímida, talvez um pouco mais que isso.
Avaliava as circunstâncias, será que valia a pena se expor, evitava desgastes.
Ele parecia valer mesmo a pena, tão bonito, falava pouco, reservado, o que lhe atribuía um charme angustiante. Algumas garotas se aproximam dele, ele sorri para elas e olha de lado para Belinha, que quase morre, a moça fica paralisada, com cara de boba segurando para não rir e engasgar, abaixa a cabeça esperando que ao voltar ele já esteja olhando para o outro lado, é incapaz de manter o olhar dele com o seu, apesar de querer muito.
Belinha pensa como seria bom ter um pouco mais de ousadia, bebi um demorado gole, e ri da esperança de ficar embriagada com aquele drink de morango. Pedi uma Gin tônica.
Bebe tudo, mesmo tendo a impressão de estar virando um vidro de perfume barato. O rapaz a olha intrigado, com uma expressão de surpresa. Belinha sorri desconcertada e oferece o copo, ele já não a olhava mais. Belinha murcha. Toda essa movimentação a deixa exaurida, com vergonha de si, a moça pedi a conta. Evita olhar para o rapaz, que se aproxima sem que ela pudesse ver, sorrindo ele se apresenta: - Oi, meu nome é Roberto. Eu estava alí te olhando, queria te dar meu telefone, quem sabe a gente poderia se encontrar um dia desses e conversar um pouco.

Belinha ri com os lábios cerrados, olha para aquela figura linda, mãos lindas, dentes lindos, movimentos lindos, harmônicos, diferente dela, que parece poder desabar a qualquer minuto, pensa no quanto aquilo tudo deveria fazer um bem enorme as pessoas, mas não a ela, ela só conseguia pensar que ele, no mínimo, deveria ser famoso por gostar de garotas estranhas, sem sal e freaks, não, essas coisas não aconteciam com ela. Belinha sabia que tudo que ela conseguiria despertar em pessoas como Roberto era aversão ou no máximo culpa, ele não tinha se dado ao trabalho nem de perguntar seu nome, então Belinha se desculpa e recusa a boa vontade e o telefone do rapaz. Ri mais uma vez de si mesma, encontrando uma resposta para a situação toda, o rapaz deve ser um desses estudantes de psicologia em estudo de campo, e vai embora achando graça, tentando se convercer de sua explicação.

terça-feira, março 28, 2006

Diassujos

Em cidades muito cheias a ansiedade é uma constante, uma resposta que ameniza a loucura, as pessoas envelhecem, os objetos estragam e são substituídos por outros. Os amantes, o chuveiro, a porta, o ferro, a cafeteira, a geladeira, o porteiro, a TV, o computador. O tempo destrói tudo.

Em cidades como essas a morte perde o sentido real, ela vira tempo de folga ou tempo perdido, tempo cronometrado: três horas de velório, quinze minutos de missa, dez minutos para o enterro, cinco dias de descanso para os filhos, três para os netos. Embora em cidades muito cheias a morte continue sendo uma cusparada na cara, chega na hora que quer, de madrugada ou em pleno horário de almoço, atrapalha o trânsito, atrasa projetos, deixa pessoas esperando.

O relógio da parede da cozinha avisava que já era tempo de ir trabalhar então eu tomei, resignada, meu café gelado, saí com o hálito pegajoso, comprei uma bala, acenei para o senhor dono da banca de revistas, que sempre me avisa quando a PREACHER chega, e tomei o carro de “aluguel.” Não me pergunte a razão, mas eu achei legal falar assim. Então eu tomei o carro de aluguel para chegar pontualmente às 08h00min no trabalho e terminar meus projetos dentro dos prazos. A pessoa que cumpre os prazos sempre recebe uma premiação, e ela não é nada ruim.

Fim do dia no escritório.

Agora é a minha vida social quem exige de mim, vamos todos para o pub mais cheio da cidade, sentir muito calor, ouvir pessoas gritando e tentar conduzir alguns flertes em alguns homens embriagados, cansados, agitados, e tentar ao máximo desacelerar o ritmo que nos é imposto, na verdade não é bem imposto, mas como a premiação é boa a gente não se importa de viver com o pique de um cheirador, produzindo 8 horas por dia, 7 dias na semana. Conversas sobre nada, cheia de palavras rebuscadas, novas ou velhas deixavam o ambiente mais cheio, tudo programado, até o drink que uma moça deve tomar se ela quiser ser “in” (in - um termo descolado terminantemente proibido de se pronunciar se você não quiser denunciar a sua intenção de ser “ “ ... você sabe!)

Fim do dia social


Casa, lugar pouco acolhedor, porém bastante prático. É preciso tempo para familiarizar com o ambiente. A cama é conhecida já o sofá... parece que foi escolhido por um estranho, e de fato foi, eu gostaria de ver a senhora mãe dele sentadinha vendo TV nessa porcaria, desenhado para um camelo se sentir confortável. Mas enfim lar doce lar, é hora de dormir, isso se eu quiser ter no mínimo 6 horas de sono, sendo assim, chapada eu apago e sonho.

O Sonho.

Eu volto ao pub, um homem enfia a mão na calça e balança o membro pra mim eu pego a pinça e morro de rir. Do outro lado uma mulher parece cair, mas permanece em pé, a música é boa, mas não dá para ouvir direito, um homem chora copiosamente no balcão, eu sinto por ele, exposto ali à luz do néon, atrapalhando os pedidos de tequila da moça de rosa, o homem que chorava me leva para casa, num carro de teto baixo, tipo baratinha, as janelas estão fechadas e por isso eu não consigo respirar, mas tenho medo de pedir para abrir, evito chamar a atenção dele para mim, tento desaparecer, não consigo, minhas mãos denunciam minha aflição, o homem segura as minhas mãos que estavam enterradas entre as minhas pernas, ele as aperta entre as dele, em seguida agarra o meu pescoço e sorri dentes amarelados de cigarro e café pra mim. Eu sinto vontade de morrer e acabar logo com aquilo, engolir se tornava penoso.

Eu acordo com a sensação de ter lágrimas para chorar, mas não tenho. Seguro meu pescoço tentando sentir a mão novamente. Suada, eu me sinto infinitamente sozinha e amedrontada, eu rezo para Deus me ajudar, rezo para que ele seja meu pai, me repreendo por não acreditar nisso, tornaria tudo mais fácil, acho graça da idéia de ir a uma igreja, de madrugada, depois do Pub, a única hora que seria concebível a idéia de parar.

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sexta-feira, março 17, 2006

O último adeus de Liana

Seco, o tempo estava seco. Não por causa do sol. Não chovia, não fazia sol.
Naqueles dias escuros só ventava. Liana minha noiva não se abalava com isso.
Eu, Joaquim me sentia mal, bem mal, miúdo, encolhido para ser mais exato.
Mas nada disso importa. Liana tratava de velhos doentes, limpava os doentes e lia para eles, fazia isso todas as tardes. E fazia bem, todos os velhos a adoravam por isso. Mas Liana sempre achava que não fazia o suficiente e por vezes se considerava egoísta por pensar em largá-los. Ela sempre dizia com aquele jeito lamurioso dela de falar:

- Puxa Quinzinho, eu só me permito falar essas coisas para você, pois é vergonhoso.
Mas é que me deixa mesmo angustiada, vê-los definhar, eu sinto pena. E é horrível sentir pena, porém eu não consigo identificar qualquer tipo de dignidade na condição deles, eu não consigo. E nessas horas tudo que passa pela minha cabeça é nunca mais voltar lá, fingir que não existem velhos no mundo e tentar morrer antes dos 60 anos. Estúpida! Isso é o que eu sou, uma puta egoísta e estúpida. É por demais penoso vê-los sorrir tão inocentes, sem dentes e com a pele fina e enrugada. E quanto mais aberto for o sorriso mais explícita é a tristeza que eles trazem. É mortificante receber deles um carinho que obviamente não é por mim. Mas Quinzinho o que mais me faz sentir uma pessoa dura é saber que eu só faço isso por eles por culpa, culpa do asco que eu sinto pela degradação deles. Quinzinho eu os odeio e me odeio por isso. Eles me fazem sentir suja, cada banho que eu dou é uma tentativa inútil de me limpar da minha imundice.

Mil vezes eu disse a Liana que ela só estava sendo honesta, que grande parte das pessoas mundo se sentia da mesma forma em relação a velhice mas que ninguém dizia nada, nem tão pouco fazia. E que ela estava sendo boa por tentar trabalhar uma fraqueza de forma tão positiva. E por vezes funcionava, e por vezes voltavam suas perturbações, embora Liana nunca deixasse de ir todas as tardes ao Hospital do asilo.

Todos os dias depois do almoço eu pegava Liana em sua casa e a deixava com os velhinhos, mas nesse dia ela já tinha saído. Eu estranhei, mas segui para o meu trabalho sem pensar nas razões que fariam a moça mudar nossa rotina. Na verdade eu só pensava bravo na falta de uma ligação que me poupasse o tempo de ir até a sua casa à toa.

O vento gritava do lado de fora da janela, eu sentia falta dela, mal podia esperar a hora de ver Liana. Era confortante o tanto que ela achava romântico aqueles dias sem vida. Mas Liana não voltou para casa. Naquele dia tão pouco ela foi ver os velhos, Liana havia desaparecido. Choveu durante toda a madrugada, toda a gente saiu para procurar Liana, que quase ao amanhecer apareceu, despudoradamente morta, com sua saia levantada e entre as pernas uma carta que tinha instruções para ser publicada no jornal, o que não aconteceu. Segue trechos da carta de Liana:

Eu espero que minha morte seja simbólica, espero que dê coragem a todos para dizer o que realmente são, eu espero que todos me venerem com ódio, que digam, maldita Liana, putinha barata, e admitam no seu íntimo, ela fez o que eu queria ter feito.
Assumo não, declaro aqui que fui suja, bolinava os velhos que só não me estupravam por não terem força e me divertia com isso. Defecava nas senhoras mudas e para o restante contava-lhes todo tipo de bizarrice com pessoas das suas famílias. E me divertia muito com isso, por vezes acertava. Vocês devem se lembrar do caso da menina que era estuprada pelo pai, o pai era filho da Dona Neusa, uma velha muito escrota que eu cuidei até a morte. Coincidentemente, D. Neusa faleceu depois de ouvir a minha história sobre seu filho que chupava a netinha todos os dias na esquina da escola. D. Neusa não agüentou a emoção de escutar tamanha sujeirada sobre o filho, sorte dela que morreu sem saber dos meus poderes premonitórios.
Enfim, morro feliz e mais vazia... vocês, hipócritas, podem imaginar como é duro carregar uma mentira por tanto tempo, eu precisava contar, precisava que toda a gente soubesse. Então, aqui jaz Liana, uma putinha imunda que de tão leve caiu do despenhadeiro sem calcinha.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Ave Isolda!

A lavadeira se vestiu de princesa e saiu para a avenida, onde foi saudada como tal.
Na frente de Isoldinha era essa a imagem que se formava e, na mente dela, a conclusão a qual chegara, fora de que se a lavadeira virou princesa poderia ela também se tornar uma nobre senhora.

Isoldinha fora abandonada pelo noivo, o rapaz a trocara por outro varão. Acabando de vez com a auto-estima da moça que já se encontrava bem miudinha. Era carnaval e, normalmente, todos estranhavam a falta de alegria de Isolda com a festa. Era a maior festa do ano, onde até as mães relaxavam um pouco e iam se enfeitar também.

Mas Isoldinha sempre foi uma moça quieta, com prazeres muito simples, um romance poderia ser lido por ela várias e várias vezes sem lhe deixar de ser interessante.

Mas neste carnaval Isoldinha aceitou o convite das colegas e foi para a rua fantasiada, com a cara e as unhas pintadas. Ela estava mesmo bonita, um pedaço de carne como lhe disse o amigo do irmão, um rapaz que a mãe já tinha advertido: Neguinho deveria ficar bem longe.

Isoldinha descobriu na passarela do samba sua nobreza, e como era farta.
Dançou sem se preocupar, sorria sem pudor aos que a olhavam, mas não se demorava em desviar o olhar e deixá-los ansiosos por uma próxima olhadela, que a moça cuidou para que não houvesse.

Isoldinha dançou até os pés não suportarem mais. Parou para descansar. Na frente de Isoldinha a lavadeira levantava o vestido de princesa despindo se da sua nobreza e entregue aos foliões que iam ao delírio com a sua figura nua.

Isoldinha viu também Alberto, o ex-noivo com o famigerado amigo de Neguinho.
Viu Neguinho se contorcer para melhor ver a princesa lavadeira, viu suas amigas, boquiabertas, amedrontadas com o fascínio que a nobre nua exercia sobre seus pares.

Isoldinha foi para casa. Caiu lhe a nobreza, a produção feita para a festa já havia sido lavada pela chuva. Mas a moça estava satisfeita, pela primeira vez desde menina, Isolda conseguiu compreender e se entregar ao carnaval. Debilmente ela se divertiu, cantou, dançou e sentiu aquela força inexplicável que fazia a multidão deixar os grilhões em casa.
E agiu, conscientemente, como uma tola!

Já na porta de casa, um folião que vinha pulando, sem camisa e com o sorriso mais honesto e embriagado na cara, sacou-lhe um beijo na boca, deixando-a em seguida, ainda pulando, mandando beijos pelo ar e agradecendo a bondade da princesa para com os vossos humildes súditos.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Estragos!

E lá se foi a alegria
Pisando forte
Jurando nunca mais voltar.

Levou na mala
Roupas sujas e
Lágrimas não choradas.

Para não contrariar
Abro a última garrafa
E vou de encontro à última gota.

Acordo dando razão
À sua partida e à
Sobra de seus pertences.

E, só por ironia
O dia não está cinza
A luz brilha na minha cara


Muito romântico.
Minha cara partida
Exposta, ferida à luz do dia.


Ai meus ais!
Como pode uma gota
ser tão destrutiva?


O que dói não é o abandono
Sua partida, desde a chegada,
Era esperada.


Mas partidas sem despedidas
Não finalizam nem iniciam nada
Só este poema sem rima e sem graça.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Ode a Ana

Deus me traga Ana de volta, estragada.

Eu a quero antes de conhece la, antes das cinzas de cigarro no meu lençol,
antes do sol nascer. Sem risadas histéricas e sem saber o preço de suas
calcinhas. Traga Ana sem intimidade, sem olhares de entrega e sem lágrimas
no rosto. Traga Ana para mim sem amor.

Quero Ana de volta vendada, travada com lacre de segurança.


Afasta de mim essa mulher que sorri todos os seus dentes, essa Ana maquiada
e penteada, falante e preguiçosa, entregue e amante, cheia de medos e
desejos maternais.

Afaste a da minha casa e acima de tudo, Deus, afaste seus braços compridos
que parecem poder envolver o mundo.

De onde saiu essa mulher amante que parece não querer nada além de amar. Ana
ama tudo, ama a vida, a mim, aos nossos futuros filhos. Ana não é mais, nem
de longe, a mulher que costumava ser.


Eu quero Ana de volta nem que eu tenha que perder. Eu quero Ana me
ignorando, falando baixo e rasgado, odiando a tudo e a todos. Como eu podia
imaginar que tudo que Ana queria era amar. Ana perdão, mas seus filhos vão
morrer antes de nascer. Ana que ama vai chorar e eu vou perder. E no final
eu terei apenas o pior de você que na verdade foi o que eu sempre amei.
Perdão por te lá feito se entregar, mas você exagerou, Ana.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Berlin

No primeiro momento o medo foi inevitável ela ansiava por aquilo tanto quanto temia.
Mas finalmente lá estava Sofia diante de um mundo dez vezes maior que ela. A manhã era tão convidativa quanto à noite, era fria, calma e com cheiros distintos.

A chuva que caía deixava tudo cinza e melancólico, fazendo com que os elementos que compunham a paisagem a frente dela, inclusive ela, fossem muito mais antigos que realmente eram.

Então por um momento a chuva a fez parte daquilo que ela nunca foi, que nunca foi dela, mas que naquele momento era como se fosse.

O decorrer do dia passou como os dias passam para um recém-nascido.
Sofia poderia ter tido um maldito torcicolo, pois cada pedra de calçada era notada e a moça parecia querer engolir cada novidade apesar de, para sua surpresa, ter se sentido estupidamente feliz ao se deparar com alguns elementos familiares.

A noite trazia vários sons: uns embaraçosos outros bem vindos e a premissa de uma madrugada encharcada. Sofia bebia devagar a fim de não estragar sua percepção com a embriaguez, mas foi inevitável e até mesmo prudente beber mais que uns copos.

O frio doía na costela e a bebida só serviu mesmo para aquecer o corpo e a mente.
Sofia sentia o hálito frio e alcoólico do ar que insistia em ser fiel a sua razão... Parecia que ele poderia carrega - lá, levando-a para outro lugar ou mesmo entregá-la de volta.

Sofia pensava nisso enquanto uma mulher dizia coisas sem sentido e a presenteava com um pedaço de desenho que outrora ela tentava vender inteiro. A moça sorriu aceitando o desenho e saiu para outro bar, um que fosse possível dançar.

O vento, oposto a chuva, a tinha deixado deslocada. Claramente fora do contexto.
A madrugada trazia jovens encorajados por alguma força misteriosa, dessas vendidas engarrafadas ou enroladas em papelotes de alumínio.

O vento espalhava a fúria deles por colocar um fim a clareza. E tudo se tornou comum novamente, pois em se tratando de humanos nada, nem mesmo a distância os consegue parecer discrepantemente diferentes.

Então Sofia foi de volta pra casa. Onde ás vezes ela se sentia estupidamente feliz!

quinta-feira, setembro 01, 2005

O puteiro das candongas

Puta que pariu! Eu dizia pra mim mesma
Puta que pariu, você deixou o miojo queimar.

Choro...

Saio pra rua sem coragem de olhar a panela queimada e pensando na estupidez de ter saído de casa sem aprender a cozinhar. Puxa que burrice!

A casa é tão pequena mas tem enormes espaços vazios,assim como a rua que apesar de grande parece que não mora ninguém, só apartamentos. Onde estão os moradores, meus vizinhos, eu só vejo portas! Ora quem se importa, nem eu estou lá!

Eu gosto mesmo do metrô, tem o cara lindo que eu gosto de observar dormindo.
Tem a menina da mochila rosa, ah! Como ela cheira bem e aquele velhinho que fala sozinho e sempre diz umas coisas engraçadas.

Às vezes eu me sinto muito insignificante e ás vezes isso me faz bem.
É gratificante passar batido por aí, o mundo dá voltas, os conceitos evoluem e uma vez a cada tempo eu acabo me tornando cool de tão sem graça.

Mas o que pertuba minha vida é a casa torta! Por isso todos os dias eu passo por aqui e vejo se fizeram alguma coisa com ela! Deviam derrubar a porra da casa, casa feia do caralho!
Um dia eu queimo ela, abro um puteiro, chamo o velhinho doido do metrô para ser o porteiro, coloco a menina da mochila rosa para trabalhar e me caso com o cara lindo que dorme!

terça-feira, agosto 30, 2005

A escolhida

- Me diz que não, por favor!
- Como assim goldenshower?
- Eu não posso te dizer isso.
- Parece divertido
- Desculpa , o que você disse?
- Eu disse para nós sairmos daqui, talvez a minha casa.
- Acho que não... Eu quero dançar.
- Você sempre quer dançar.
- Então vamos?
- E eu tenho escolha?
- Claro que tem, sempre teve.
- É, mas hoje eu escolho você!
- Quanta honra!
- Eu não quis...
- Não esquenta eu tô brincando.
- Eu não, definitivamente eu escolho você.
- Eu também me escolhi. E aí, como é que nós vamos fazer?

Depois disso nós ainda conversamos sobre tudo e eu já não ouvia as conversas alheias.
Sua mão na minha perna me deixava nervosa quase com vontade de chorar mas , apesar de não querer mais dormir sozinha eu não queria ser escolhida.
Queria ser a única opção e ele me tirou o privilégio e ainda deixou em mim uma mágoa.
A mágoa de ser egoísta!

As mémorias de Alice

Honestamente eu gosto mais de pensar nele que estar com ele.
Isso por vezes me consome mas, eu gosto de me lembrar de seu rosto, aquele rosto perturbado embora bonito pena que ele esteja perdendo a definição, que fraca memória eu tenho.

As lembranças são bem melhores que os momentos, elas são moldáveis.

Mas você está se apagando pena eu não poder te ver de novo... isso estragaria toda a minha lembrança e então é melhor deixar você ir, detesto esse meu lado possessivo, ora bolas se ela que ir que se vá. Vá para o inferno! junto com todas as outras boas caras das quais eu já me esforcei para lembrar... e me leve junto que essa faceta de mim era só para ele!

Foi tão fácil te ter... Agora só peço que se vá de uma vez, o problema são os fragmentos de lembrança.
Me faça o favor e tire de vez seu maldito sorriso da minha cara!

quinta-feira, abril 07, 2005

O diário das coisas

A madeira que se acaba
O amor que me confunde
A razão que se perde
O sono que se funde
A realidade que finda
A loucura que começa
Os sons que interrompem
A felicidade que cessa
A tristeza que aquieta
A Frida que inspira
A inspiração que me impele
A inconstância que me agride
A seta que me resta
Os sorrisos que encerram!
As Mirians que são Mirians

terça-feira, março 29, 2005

O último café

Hélia rasgou foto por foto do álbum de infância que a mãe, Dona Clara,
conservara até a morte. Catou umas roupas da falecida para ganhar
algum dinheiro no brechó e se queixou por ter sido a mãe tão pouco
vaidosa. Era sexta-feira e fazia frio na cidade, Hélia já tinha trinta
e sete anos, os parentes já não faziam brincadeiras sobre sua
solteirice, na verdade os parentes não faziam brincadeira alguma com
ela. Hélia era afiada como uma navalha e suas reações poderiam ser bem
violentas.

A moça era garçonete, ninguém nunca entendeu como ela conseguiu
arrumar um trabalho desses, ela parecia se dar melhor com cobras que
com pessoas. A lanchonete era no centro, Hélia odiava o lugar e tudo
que se relacionava a ele.

No dia da morte de Dona Clara, Hélia teve a tarde de folga, por causa
do luto. E aproveitou para andar um pouco por perto do cemitério, que
era uma região antiga da cidade, um bairro calmo e bonito.
Hélia andou por horas antes de se sentar num bar para um café. O bar
era do Seu Hamilton. Um senhor realmente muito amável, que exibia com
orgulho uma vasta coleção de canecas de alumínio com emblema de vários
times de futebol. Ficava numa prateleira de madeira, na parede, logo
atrás do balcão onde ele ficava escorado fumando seu cachimbo.

Hélia entrou e pediu o café, Seu Hamilton, logo perguntou o que ela
estava fazendo por aquelas bandas, se vinha do cemitério. Hélia
respondeu que sim, sem vontade, catou o café e sentou-se a mesa com
uma jornal de ontem que estava espalhado sobre ela. Seu Hamilton não
se fez de rogado, sentou-se na mesa com Hélia e deu inicío a uma
conversa amistosa com a moça:

Sabe filha, eu tenho esse butequim aqui a mais de vinte anos, no mesmo
lugar! Acompanhei muitas crianças virarem adolescentes bagunceiros e
então doutores. Já ví e ouvi muita coisa, filha. Principalmente de
gente saída do cemitério sabe. Tem muita gente sozinha nesse mundo.
Você me entende?

Hélia sorriu sem paciência e continuou a passar os olhos pelo jornal.

Seu Hamilton não era homem de desistir fácil, sua função alí no bar ia
muito além de atender as pessoas, ele as ouvia sempre e não poderia
ceder diante de uma pessoa claramente necessitada.

Minha filha... disse Seu Hamilton abrindo os braços e sorrindo com os olhos
Desabafa! bota para fora toda a sua tristeza.

Hélia que já estava farta de toda a choradeira e lamentos pouco
convincentes dos familiares, deu uma gargalhada que mais parecia um latido, e disse
para o velho:

Meu senhor, o senhor não é meu pai então pare de me chamar de minha
filha, EU, lamento muito que o senhor tenha passado vinte anos da sua
vida inútil, dentro desse buraco fedido vendo os outros prosperar, sem
sair do lugar. O enterro que estou vindo é da minha mãe, uma mulher
fudida que nunca fez nada nessa vida além de se lamentar por ter se
casado e tido filhos perdedores com um homem vagabundo e picareta, o
senhor meu pai, que o diabo o carregue!!!! Portanto eu só estou
cansada de toda a trabalheira que dá enterrar uma pessoa e só queria
aproveitar um pouco a folga que me foi dada por razão da morte da
velha.

Agora dá licença! que eu..

Blam!!!

Seu Hamilton é realmente um senhor muito amável, mas ele não gosta de
ingratidão, e tem acesso irrestrito ao cemitério. Agora Hélia jáz
junto com sua mãe, Dona Clara, que recebe semanalmente, assim como
mais de vinte pessoas, rosas vermelhas de Seu Hamilton.

quinta-feira, março 03, 2005

O paciente

- Sexo?
- Até a segunda ordem. Danilo diz e aponta pra si.
- Sexo? Pergunta a atendente já sem muita paciência
- Masculino.Será que a minha aparência deixa dúvidas? Pensou Danilo.
- O Sr.está esperando o Dr Otacílio?
- Como senhora?
- O SR ESTÁ ESPERANDO O DR OTACÍLIO, O PROCTOLOGISTA? Diz a atendente em volume suficientemente alto para a vizinha de Danilo, sentada nas cadeiras de espera, escutar e soltar gargalhadas histéricas.
- Por que a senhora não vai tomar no centro do seu cu? Diz Danilo em volume compreensível só para a atendente, e sai sem se consultar.

- Eu nem estava esperando o proctologista, aquela mulher fez o que fez só para me sacanear. Diz Danilo à mulher sentada ao lado dele na fila do banco, um banco chic a valer, com cadeiras para os clientes, que Danilo tinha ido assim que saiu do consultório para tentar negociar suas dívidas. A mulher não gostou da conversa dele, na verdade ela achou que ele estava pedindo pra ela fazer um ‘fio terra’ e como ela era crente não gostou da idéia.
Danilo tratou logo de se explicar, mas ela saiu gritando, aos prantos, que o diabo a estava tentado mais uma vez, as pessoas na fila olharam torto para ele, que por sua vez, fingia ignorar todos eles.

Danilo chegou à conclusão de que todo mundo tinha acordado de ovo virado hoje, ele mal podia esperar a noite chegar para se enfiar dentro de um daqueles inferninhos, bem quentes, bem sujos e se embebedar o suficiente para não conseguir distinguir uma cara feia de outra.

No inferninho, Danilo se sentia acuado demais para tentar se aproximar de alguma mulher. Sentou no bar e bebeu durante horas, só resolveu ir embora um pouco antes de clarear. Na porta uma mulher se aproximou e perguntou seu nome, Danilo sem entender muito o que estava acontecendo, gritou pra mulher: SOU HOMEM DÁ PRA VER? OU POR ACASO EU ME VISTO COMO MULHERZINHA?
A mulher estava calada e continuava parado na frente dele, por um segundo Danilo parou e perguntou: Por acaso você não sente nenhum um pouco de tesão por mim?
- Eu estava justamente pensando nisso... mas você fala demais. Disse a mulher saindo.
Danilo se abaixou achando graça e gritou para moça ouvir: EU TAMBÉM NÃO QUERIA, VOCÊ ACHA QUE EU SOU FÁCIL ASSIM, EU SOU HOMEM, MAS NÃO SOU TÃO FÁCIL ASSIM!!!

Na volta pra casa Danilo pensava na atendente. A culpa era toda dela, aquela mulher perversa!!!!!
No dia seguinte, pela manhã, com uma ressaca de elefante se espremendo na cabeça dele, Danilo resolveu procurar a filha da puta da atendente,decidido a acabar, de uma vez por todas,com aquele arzinho de atendente filha da puta. chegando no consultório:
- Sexo?
- Com qualquer vagabunda menos com você! Diz Danilo em volume compreensível só para a atendente.
- O que é isso??? olha que eu chamo a polícia seu louco pervertido!!!! Diz assustada e em voz alta a atendente
- Como senhora? O que está acontecendo eu posso ajudar!! Disse Danilo fingindo, para os demais,que nada estava acontecendo.
- Sexo?
- Aos quinze eu poderia fingir que você era a minha eqüina, mas hoje não rola né! você entende.
- A atendente boquiaberta, tentava gritar, mostrar-se indignada, mas as pessoas estavam ficando cada vez mais assustadas com ela.
- Nome?
- Ah! Bom... Danilo Ferreira homemaior, igual ao meu membro, membrão!!!!
- Pode aguardar alí, longe de mim, diz a atendente...baixinho desta vez. o senhor será o próximo!

terça-feira, março 01, 2005

Visita para Dona Ana!

Fazia tempo que Dona Ana não saía para passear ela pensou que talvez essa tarde seria um boa tarde para tentar, ela queria fazer uma visita.
Dona Ana sabia que pessoas passeando pelas ruas nunca eram convidadas a entrar então, pensou em ficar na varanda da sua casa e esperar por alguém que parecesse estar passeando e assim o convidaria a entrar. A velha queria disseminar uma nova cultura, solidariedade aos solitários, ela não deveria ser a única.

Dona Ana colocou sua melhor roupa e logo passou por sua rua uma jovem, distraída. Possivelmente ela estaria ali a passeio. A velha se aproximou da jovem e perguntou qual era seu nome, a moça olhou estranho e atravessou a rua sem responder. Dona Ana já esperava por isso, voltou para a varanda de sua casa sem se abalar aquele era só o primeiro dia.

Pela manhã chovia e Dona Ana viu no mau tempo uma boa chance de receber visitas, mas mesmo debaixo de chuva ninguém aceitava o abrigo oferecido, pensou que talvez ela estivesse parecendo ameaçadora demais e na manhã seguinte já com o sol brilhando, arrumou os cachos do cabelo e, com uma jarra de limonada foi para a varanda. Desta vez, o calor seria um atrativo para o seu visitante.

Dona Ana Fez deste momento sua rotina diária até a morte, alguns dias ela recebeu visitas outros não, mas não tinha importância, apesar de nunca ser convidada para fazer uma visita,Dona Ana tinha vários visitantes: Elida, a costureira que contava para Dona Anica todas as maldades que o marido fazia e que ela se recusava terminamtemente a larga pois só ela conhecia a verdadeira essência do marido, no fundo, um bom homem corrompido pela cachaça.E ainda, Jonas o belo lixeiro que tomava banho em sua casa e deixava a velha espiar, Rosaura uma artista, que até pintou um quadro de Dona Ana que,apesar de não ter gostado muito,pendurou na sala de estar, bem no meio da parede. E o mais querido de todos, o mais fiel, Leopoldo o cachorro que passava por lá todos os dias para se alimentar e até hoje, mesmo depois da morte de dona Ana, passa por lá todos os dias na esperança de encontrar alguma migalhinha.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Desamores de Carnaval

Rio antigo, carnaval. A felicidade e a leviandade são obrigatórias.
Eu não me importaria com isso se a antes preguiçosa tristeza não estivesse
agora desperta como os foliões que fazem troça de mim pelas ruas.

Sou uma mulher de um só, nem parentes, nem amigos, nem ninguém
gozava de minha atenção e afeto que estavam todos dedicados a ele,
aquele que partiu me deixando com a obrigação de ser feliz.

Renato não disse nada além de: Amar, amo Joana mas prefiro me afastar.
Antes que ele viesse com os pormenores o interrompi ciente de que
alí havia a mesma razão que qualquer outra pessoa teria para largar o
parceiro, por mais que Renato, o poeta, sensível fizesse grande
esforço para não ser um homem de sua época, aquele ato era comum a todos os seus contemporâneos. Substituir a sua gasta e irritadiça mulher por outra juvenil e branda.

Ainda que tenha me sobrado somente uma carcaça estraçalhada o pior foi ter
de voltar a antiga casa de minha mãe. Por caminhos que antes me
levaram cheia de expectativas a casa do venerado Renato. Ah! o homem
de minha vida, adorável, um pensador, muito a frente dos seus, homem
liberto, impressionante, imprevisível, até demais.

As ruas já estavam pilhadas de chuva e foliões, eu me encontrava ainda
mascarada. Não contava pela manhã, que a tarde já estaria desgastada.

Fui andando sentido meu corpo inteiro pulsar, andava pelas ruas com uma
obstinação sem a qual, eu acreditava, não conseguiria chegar ao meu
destino. O lar abandonado de mamã, com seus móveis antigos, seus
horários e aromas.

Mamã havia de me consolar, mas havia também de me lembrar o quanto
desaprovou o meu companheiro, comunista e fanfarrão que aos trinta
ainda vivia de mesadas da avozinha. E desta vez eu não iria jogar na cara
dela a bela poética do meu amado que não devia nunca ser desperdiçada
em jornalecos de quinta.

Nas ruas, estrangeiros se encantavam pelas belas mulheres, negras,
loiras com 1,80 de altura, e alguns atributos secretos a mais. Aquela
confusão de gente fazia meu estômago doer. No deck, Martha gritava meu
nome, mostrando os dentes, embriagada se perguntando qual a razão da
minha rouca alegria.

Por mais que eu esclarecesse à moça, ela não se conformava com as
razões da minha tristeza, "Deixa lá suas lamúrias mulher, que homem
tem a rodo". Martha só não compreendia que eu não havia perdido um
homem e sim a minha metade que se não fosse aquele estava provado que
metades não existiam!

Martha era uma dessas feministas que de tão radicais acabavam se
portanto como homens da pior laia. Preferi ir embora, recusando o
convite de Martha de festejar minha liberdade.

Havia música por todos os cantos, por pouco tempo eu tive vontade de entrar na água, mas o mar estava infestado de cores e alegrias e aquilo já não me cabia bem.

Fui pensando na minha ingenuidade em achar que aquele poeta era tão
diferente de todo os homens. Gostaria que ele tivesse sido mais original
e terminado de forma mais drástica... "Ah minha querida não te amo mais,
não insista pois outra mulher é para mim objeto de reverência, quero
apagá-la à borracha para dar espaço à minha nova amada. Suma daqui!"... Assim teria sido bem melhor que ser trocada covardemente por uma fulaninha que ele não se atrevia nem a contar-me a existência que teve que ser confirmada por Martha, que a chamava de: Margarida, bela e fedida.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

-Mail to-

-----Mensagem original-----
De: Mirian Silveira [mailto:msilveira@gmail.com]
Enviada em: sexta-feira, 14 de janeiro de 2005 13:03
Para: Leandro
Assunto: oi

Oi meu coquinho lindo, meu doce de leite, minha cocada derretida meu
chocolate belga, minha música preferida, meu filme predileto, minha
noite bem dormida, meu orgasmo demorado, minha lembrança colorida, meu
cheirinho de café feito na hora!

Meu sonho concretizado, meu conto mais ousado, minha tarde de folga,
meu cantinho particular, meu prato predileto, meu trabalho bem feito,
minha boa razão, meu maluco preferido, meu melhor amigo,
meu melhor namorado, meu futuro marido.

Como vai você?